Doença de Hunter

O que é a Mucopolissacaridose Tipo II (MPS II)?

A síndrome de Hunter ou mucopolissacaridose tipo II (MPS II) é uma doença genética hereditária, ligada ao cromossomo X, da classe das doenças de depósito lisossómico (DDL). Atinge principalmente as pessoas do sexo masculino.

É causada pela deficiência da enzima iduronato-2-sulfatase. A doença interfere na capacidade do organismo em quebrar e reciclar determinadas substâncias conhecidas como mucopolissacarídeos ou glicosaminoglicanos (GAGs) no lisossomo, resultando numa disfunção orgânica multissistémica.

À medida que os GAGs se acumulam nas células de todo o corpo, os sinais da síndrome de Hunter tornam-se mais visíveis.


A MPS II foi descrita pela primeira vez na história pelo médico canadense Dr. Charles Hunter em 1917.
Anos depois, concluiu-se que a doença apresenta sete variações diferentes. Nota-se nos doentes a ausência ou insuficiência de enzimas responsáveis pela quebra dos mucopolissacarídeos, daí o nome mucopolissacaridose. No caso da mucopolissacaridose tipo II, por ser ligada ao cromossomo X, a síndrome atinge sobretudo os homens e muito raramente as mulheres.
A incidência é de 1 em cada 155 mil meninos nascidos vivos.

TRANSMISSÃO

Como se transmite a MPS II

A genética da síndrome de Hunter

Quase todas as células do corpo humano têm 46 cromossomas, sendo 23 derivados de cada um dos pais. O gene que codifica a produção da I2S está localizado no cromossoma X.

As pessoas do sexo feminino têm dois cromossomas X, um herdado do pai e outro da mãe; já as pessoas do sexo masculino têm um cromossoma X herdado da mãe e um cromossoma Y herdado do pai. Se um indivíduo tiver a cópia anormal do gene para I2S desenvolverá a síndrome de Hunter.

A síndrome de Hunter tem um padrão de herança ligado ao cromossoma X. A mãe portadora passará o gene da I2S com a mutação, com uma probabilidade de 50% em cada gestação.

O pai com síndrome de Hunter passará o gene com a mutação para todas as suas filhas, mas não passará para nenhum dos filhos.

SINTOMAS E MANIFESTAÇÕES CLÍNICAS

O corpo humano depende de uma ampla gama de reações bioquímicas para manter suas funções vitais, nomeadamente para produzir energia, crescer e desenvolver-se, para as comunicações dentro do corpo e proteção contra as infecções.

Outra função crítica é a quebra de biomoléculas grandes. É aí que reside a base do problema da síndrome de Hunter (MPS II) e de outras doenças de depósito lisossómico.

A bioquímica da síndrome de Hunter está relacionada com um problema numa parte do tecido conjuntivo conhecido como matriz extracelular.

A matriz é constituída por vários açúcares e proteínas e ajuda a formar a estrutura arquitetónica de suporte do organismo.

A matriz circunda as células do organismo como uma malha organizada e funciona como um adesivo que mantém as células do organismo juntas.

Um dos componentes da matriz extracelular é uma molécula denominada proteoglicano. Como muitos componentes do corpo, os proteoglicanos precisam ser quebrados e substituídos.

Quando o organismo quebra os proteoglicanos, um dos produtos resultantes são os mucopolissacarídeos, também conhecidos como GAGs. Existem vários tipos de GAG, cada um localizado em determinados locais do organismo.

Na síndrome de Hunter, o problema reside na quebra de dois GAG: o dermatam sulfato e o heparan sulfato. A primeira etapa da quebra do dermatam sulfato e do heparan sulfato requer a enzima lisossómica I2S. Em pessoas acometidas pela síndrome de Hunter, essa enzima está parcial ou completamente inativa.

Como consequência, os GAGs acumulam-se nas células de todo o corpo, em particular nos tecidos que contêm dermatan e heparan sulfato. Como consequência dessa acumulação, ocorrem interferências no modo de funcionamento de determinadas células e órgãos, o que ocasiona uma série de sintomas graves.

A taxa de acumulação de GAG não é a mesma para todas as pessoas com a síndrome de Hunter, o que leva ao surgimento de uma série de problemas médicos.

As manifestações são diversas como alterações faciais, cabeça com volume maior, abdómen aumentado, perda auditiva, comprometimento das valvas cardíacas e da função cardíaca, obstrução das vias respiratórias, apneia do sono, aumento do fígado e do baço. Pode ainda afectar a mobilidade pela acumulação de GAGs nas articulações. Na maioria dos casos há comprometimento do Sistema Nervoso Central (SNC).

Nem todas as pessoas com essa síndrome são afectadas da mesma maneira. Contudo, a doença pode ser grave, progressiva, crónica e, se não diagnosticada e tratada em tempo, pode reduzir a esperança de vida. De referir que na MPS II a criança apresenta-se normal ao nascer. Entretanto, nos dois primeiros anos de vida, a progressão da doença é muito rápida. Estima-se que o tempo para o diagnóstico a partir do aparecimento dos primeiros sinais e sintomas é de 7 anos. Se a doença não for diagnosticada e tratada precocemente, esperança de vida para os portadores da síndrome é de aproximadamente 15 anos.

DIAGNÓSTICO

Actualmente, o principal entrave para o diagnóstico e para o tratamento de doentes portadores da síndrome de Hunter e de doenças genéticas incomuns, é o desconhecimento por parte dos médicos e profissionais de saúde em geral, o que leva a um diagnóstico tardio e, muitas vezes, errado da doença. Isto deve-se ao facto dos sintomas apresentados pelos doentes serem facilmente confundidos com doenças comuns em crianças.

Existem dois métodos disponíveis para diagnosticar a síndrome de Hunter. O primeiro e mais utilizado é um exame de urina para investigar os níveis dos glicosaminoglicanos (GAGs). Este é apenas o primeiro passo na investigação da doença. A confirmação exacta da síndrome só é feita com um teste para medir a atividade enzimática a partir do sangue ou da pele do doente.

TRATAMENTO

Várias tentativas foram realizadas para auxiliar o organismo a produzir enzimas I2S normais. Essas tentativas incluíram a transferência de células do sangue, de membranas amnióticas, da médula óssea e transplante de sangue do cordão umbilical de indivíduos não afectados para portadores da síndrome de Hunter. Porém não foi possível comprovar a melhora no estado clínico dos doentes a longo prazo. Apesar do transplante de células da médula óssea em doentes com formas graves de MPS tipo I ter tido um relativo grau de sucesso quando realizado precocemente, para a MPS II a técnica não apresentou resultados satisfatórios, sendo portanto não indicada rotineiramente. Terapias de suporte, incluindo fonoaudiologia, fisioterapia e certos procedimentos cirúrgicos podem ser úteis.

A terapia que trata a causa da doença, a falta da enzima I2S, está aprovada em diversos países. A terapia de reposição enzimática (TRE) é uma abordagem para o tratamento da síndrome de Hunter, a qual envolve a reposição da enzima deficiente por infusões intravenosas em pessoas acometidas pela doença.